Hoje à tarde
Um dia qualquer, desenvolvemos uma relação tortuosa com uma pessoa. Bom, então há um passado. Isso cria uma situação incômoda. A pessoa sinaliza distanciamento, e isso acontece. Contudo, somos obrigados a conviver. Pode ser o trabalho, a escola, a família, o que for. De toda a forma, é a vida.
Uma coisa trivial ocorre com essa pessoa: cadarço desamarrado; carteira caída; botão aberto; chave ou moeda perdida; sujeira no dente; pasta de dente na lapela; lanterna do carro ligada... Que seja. Isso pode ser dor de cabeça para a pessoa em questão; pode ser embaraço, constrangedor; pode ser que nada. Mas para nós, não.
O banal vira impasse ético: responder com indiferença, e não dizer nada, provavelmente se omitir seria uma punição pelo passado mal resolvido; ou se pronunciar, bancar o bom samaritano, e resistir a usar a situação para tentar mobilizá-la por meio de altruísmo falso, aparentemente desinteressado. Sinuca do bardo do cotidiano.
Há outra saída. Pediremos que alguém fale por nós, e exigir de pé junto que não sejamos identificados. Tentar praticar o verdadeiro altruísmo: o bem sem cara, sem panfletagem, sem interesse. Serve sem selfie?
Pois bem. Uma das soluções é escolhida.
Esperamos a pessoa. Dadas as circunstâncias, parece tocaia. Nos olhos dela, parece-nos entrever isso. O desconforto. Como há um acordo tácito - nunca dito, mas estabelecido, acordado, assinado e com firma reconhecida - em não se conversar ou encontrar além do limite tolerável, isso seria evidente. Mas não nos importamos. Seguimos em frente.
- Ó, queria te avisar... Cuidado...
Mas, na verdade:
"Olha pra mim
Não faz assim
Não vai lá, não..."
A pessoa, assustada, agradece já andando, tomada pela pressa. Frase cortada, quase soletrando, aturdida:
- Ah, bri-ga-du...
Não sabemos se esse telégrafo entra na conta do susto tomado por tal aproximação repentina, sorrateira - Que afronta! - ou se é a urgência que causou nosso alerta. Será que abalou? Gagueira também se chama sopro no coração. Se de raiva contida, de susto-suspiro, nunca saberemos.
Queríamos o quê? Palmas e louvores em uníssono? Que a distância, essa linha reta, se tornasse um único ponto? Que haja um encontro nesse desencontro? Para quê? Por quê? Ouça: Non amo, quia amo. Non amo, ut amem. Sossega o peito. Respira. Sossega. Respira... Respira, vai. Respira... Isso.
Queríamos o quê? Palmas e louvores em uníssono? Que a distância, essa linha reta, se tornasse um único ponto? Que haja um encontro nesse desencontro? Para quê? Por quê? Ouça: Non amo, quia amo. Non amo, ut amem. Sossega o peito. Respira. Sossega. Respira... Respira, vai. Respira... Isso.
Arrependimento? Não, né? Já o sagrado coração nosso ia aguentar fazer tortura nos outros? Dormiríamos abraçados ao rancor? O João, sim. Eu, não, nem.
Recolhemo-nos à insignificância. Descansemos em paz. Afinal, o aviso deve ter servido para alguma coisa.
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