Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Livros. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Diante da janela

Nesses tempos de quarentena, resistimos como podemos, desiguais, desinfelizes. Trabalha-se, muito, a despeito da falta de emprego. Se não são as mãos ocupadas com algo, é a mente, a imaginar cenários e mundos diferentes, futuros. Esse é o efeito de se ter o espaço confinado: sobra-se na gestão do tempo. Um quintal, um privilégio para alguns. Uma sacada, um lenitivo para outro. A soleira da porta, nem isso para muitos. Assim, todos ficam matutando seu plano de fuga, o plano B. Nessas circunstâncias, ler um livro, assistir ao um filme, cuidar de um jardim ou uma horta, consertar algo ou simplesmente olhar a janela devem ser coisas bem valorizadas e tornam-se uma maneira interessante de promover essa escapada, em meio à satisfação das necessidades básicas da existência, cuja importância foi imperiosamente resgatada nesse momento.

Uma das leituras que nos cai em mãos a trazer essa perspectiva é a obra Pequenas alegrias (1977), livro póstumo do escritor alemão Hermann Hesse (1877-1962), em uma tradução já antiga de Lya Luft. Ele tomará a contemplação como a ação motora de sua escrita, como alguém que mira o horizonte, belo ou feio, transcendendo-o sobretudo. No texto que abre essa coletânea de textos curtos, mas precisos, ele recomenda o amor às coisas e aos prazeres simples e a uma vida de comedimento. Ele reconhece a forte influência da vida moderna e o peso que isso nos traz, em que mesmo os momentos de lazer são aproveitados como um trabalho e, segundo ele, “(...) resulta sempre mais diversão e menos alegria”. Contra a pressa e a urgência pela fruição do tempo como “O máximo rendimento possível, com a maior rapidez possível”, ele recomenda “um remédio particular, antigo, infelizmente bem retrógado: prazer comedido é prazer dobrado. E não ignorem as pequenas alegrias”.

Viver assim, segundo ele, seria evitar acompanhar as tendências e novidades de nosso tempo com avidez e fome. Evitar o último lançamento de livro, a última estreia no teatro, a galeria de arte com os quadros mais comentados. Ao invés disso, Hesse propõe que nos dediquemos aos prazeres pequenos, mas bem mais satisfatórios e duradouros: o contato com a natureza, a frugalidade de se aproveitar uma leitura com o devido tempo, e não engolida pelo regime de leitura em série. Em outras palavras, equivalentes aos dias de hoje, nada de “maratonar” séries. Para tanto, ele estipula um rigoroso exercício de abrir os olhos. Aparentemente ligado a esses temas ditos pequenos, em uma literatura tida como regional, acaba por tratar de grandes temas: 


“Um pedaço de céu, um

muro de jardim coberto por ramos verdes, um cavalo vigoroso, um bonito cão, um

grupo de crianças, uma bela cabeça de mulher – tudo isso não nos pode ser

roubado. Quem começou, pode ver coisas preciosas numa caminhada, sem perder um

minuto de tempo. E essa contemplação absolutamente não cansa, mas fortifica e

repousa, e não só aos olhos. Todas as coisas têm um lado expressivo e outros

desinteressantes ou feios; basta querer ver. E, com a visão, vem a alegria, o

amor, a poesia.”


Assim, ele nos convida, nessa pequena reunião de textos de várias épocas de sua vida, que consistem em crônicas, relatos de viagens, registros de diário e cartas (aliás, era um exímio missivista: sua correspondência, trocada com quem quer que fosse – jovens entusiastas de seus textos, escritores iniciantes e veteranos, parentes e amigos – a exercitar o olhar. Uma caminhada pelas montanhas e charnecas. Um dia à beira da janela de sua casa, descrevendo o movimento da praça central do vilarejo. Um dia defronte a um único quadro, durante uma visita a um museu. O trabalho árduo sobre um jardim bem cuidado, no início da primavera. A passagem da paisagem pela janela de um trem em movimento. 

Nascido no vilarejo de Calw, em uma família de missionários pietistas que o preparavam para a vida dedicada à religião, Hesse, com uma sólida formação inicial que incluía o latim e o grego, por exemplo, abandona o cristianismo e a universidade, para se dedicar exclusivamente à escrita literária. Essa inadequação faz com passe por sessões de psicanálise, permeada com crises de depressão e tentativas de suicídio. Para sobreviver, trabalha como padeiro, operário e livreiro. Exercendo essa profissão, escreve seu primeiro romance, Peter Camenzind (1903), que faz sucesso.

Nesse meio tempo, também realiza viagens, pelo Império Austro-Húngaro, pela Itália e pela Suíça, para onde se muda em definitivo em 1912, e se naturaliza em 1923. Em 1911, realiza também uma viagem marcante para a Índia, a fim de encontrar a terra onde seus pais foram missionários, mas ali encontra o budismo e as religiões orientais. Essa experiência rendeu muitos frutos, entre os quais o romance Sidarta (1922), baseado em sua viagem em meio a passagens da vida de Buda. Esta viagem e a Primeira Guerra Mundial iriam marcar os temas de suas obras. Sua leitura do budismo, além de uma aproximação das teorias de Nietzsche, e da psicanálise de Carl Jung, vão influenciar a abordagem dos temas de seu tempo: o fim do Império Prussiano e a República de Weimar, períodos durante os quais a juventude de língua alemã vai se reconhecer em seus livros como se fossem o retrato panorâmico de uma crise de valores, bem descrita no livro O lobo da estepe (1927).

Hesse tornou-se muito lido entre seus pares, pois traduzia os sentidos e sentimentos do momento conturbado da história daquela região e da Europa. Apesar de seus personagens serem um alter ego bem alinhado com os seus próprios conflitos pessoais (emocionais, afetivos e conjugais), na forma de um homem de meia-idade em crise, sua literatura é apreciada, sobretudo, pelos jovens adolescentes.

Já durante a ascensão do Hitlerismo, ele se tornou um ardoroso crítico dos nazistas, o que fazia à distância, na Suíça. Mesmo sendo o medalhão da literatura de língua alemã à época, com seus livros entre os mais vendidos, essa abordagem transcendente e seu ativismo contra o regime totalitário lhe renderam antipatia interna e externa como um escritor popularesco. No entanto, isso o identificou como escritor de resistência, também incentivador da abertura da literatura contemporânea mundial para traduções em alemão logo depois da Segunda Guerra Mundial. O reconhecimento dessas ações ocorre quando foi laureado em 1946 tanto com o Prêmio Goethe como com o Nobel de Literatura. Nos anos que se seguem, ele deixa de ser um autor de referência.

Nos anos 1960 e 1970, Hesse foi resgatado por autores beatniks e hippies, com várias traduções em inglês nos EUA. Daí, para sua chegada em terras brasileiras, foi um pulo. Um dos seus romances mais importantes, O lobo da estepe, foi adaptado para o cinema, e influenciou canções e até nome de banda Leitor contumaz de Goethe, seu estilo literário pode ser explicado por meio de um trecho retirado, de um de seus textos, sobre a observação das borboletas: “Todas as coisas visíveis expressam algo, toda a natureza é imagem, é linguagem e uma colorida escrita hieroglífica”. A literatura é novamente usada como meio de superação e cura para os males da alma e do tempo. Também é voltada à luta contra as ameaças à economia predatória, ao trabalho precarizado no contexto tecnológico, à  ciência e ao gosto pelo saber; sobretudo, contra o autoritarismo. Relendo o trecho pouco antes de publicar esse texto, percebo que parece ando falando de novo sobre as mesmas coisas. Mas certos assuntos não têm com se contornar, não é mesmo? Por isso, essa leitura veio muito a calhar para os tempos atuais. 

terça-feira, 21 de março de 2017

Ausência

Não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?

Marcel Proust

segunda-feira, 13 de março de 2017

Texto importante de José Castello

Braga de binóculo
José Castello
A literatura pode servir de antídoto para um mal que contamina nosso mundo: a rigidez. Ideias sólidas demais tendem à insensibilidade e à indiferença, tendem ao esvaziamento e à repetição. Tendem ao terror. Mundo técnico, de números, de planilhas, balancetes e manuais, mundo fascinado pela exatidão e pela perfeição, nosso mundo perde, aceleradamente, o gosto pelo relativo que, afinal, é não só o que tempera a existência, mas também o que a torna possível. Perde o gosto pela sutileza. A relatividade acentua os contrastes e confere gosto à vida. Torna-a diversa. Ela é o sal do mundo.
Uma pesquisa para um projeto de Selma Caetano a respeito das relações intensas entre Rubem Braga e o Rio de Janeiro me leva a uma bela crônica, de julho de 1958. Falo de “O gavião”, um dos destaques de “Ai de ti, Copacabana”. Uma reflexão sutil a respeito do peso do relativo em nossa existência. Do peso da diferença. É uma história simples. Cena que o cronista, com paciência e resignação, observa à distância. Um gavião ameaça uma pomba. Em um reflexo, Braga logo toma partido da pequena ave. Pouco depois, porém, ele se detém para uma reflexão mais minuciosa, que o conduz a uma postura paradoxal. Pode também tomar partido do gavião _ e, mais grave ainda, pode entender o impulso que move seu caçador.
Escreve Braga, no trecho que me interessa aqui: “Não tomarei partido; admiro a túrgida inocência das pombas e também o lance magnífico em que o gavião se despenca sobre uma delas. Comer pombas é, como diria Saint-Éxupery, ‘a verdade do gavião’, mas matar um gavão no ar com um belo tiro pode também ser a verdade do caçador”. Prefere a prudência. Prefere a sabedoria de acolher o que não suporta, o que não é seu. Prefere acatar a diferença.
Trecho incômodo e sobretudo perigoso, já que, aos apressados, pode parecer que o cronista defende não só a violência gratuita, como a mais odiosa violência dos homens contra os animais. Não é isso que faz. Ele não faz, ele mostra _ que, para cada passo, há sempre um argumento possível e há sempre um contrário, ainda que o outro lado o veja como indefensável. Questão difícil _ questão ética, que fala de princípios mas também de necessidades. Todo esse terreno pantanoso onde nos afogamos, mas no qual a literatura entra não para resolver isso ou aquilo, não para tomar partido (não existe literatura partidária), mas para iluminar o que não suportamos ver. Suportar a ver, na verdade, o que? Ver a diferença e celebrá-la.
Braga me remete a Rafael Argullol que, em seu “Breviário da aurora”, define a relatividade assim: “Todos os centros são periferia”. É uma ideia igualmente bela, mas perigosa, ou perigosa porque bela. Pois com ela despencam todas as escalas de valores, diluem-se todos os centros, o mundo se torna apenas borda. Onde pisar? Mas ela se torna uma ideia sábia se nos ajudar a ver que também os valores (nossos valores) são relativos. Não passam de ideias frágeis. São apenas um centro, entre vários centros. Não para desprezá-los, ou ao contrário para acatá-los com desgosto e submissão, mas exatamente para isso: para relativizá-los. Enfim: para suavizar o mundo e desprezar as bocas com dentes arreganhados que proliferam por toda parte.
Enquanto leio Braga, “tenho fé” em Braga. Mas isso não me impede de, logo em seguida, fechar “Ai de ti, Copacabana” para abrir um livro de crônicas de Clarice Lispector, ou de Nelson Rodrigues, para lê-los com a mesma “fé”. É tudo uma questão de liberdade interior. Uma questão de saber exercer a liberdade, de aproveitar-se da grande abertura que a liberdade promove no mundo. Sem o coração livre para acatar, mas também para renegar, ninguém se aproxima verdadeiramente da literatura. Esta é a única exigência: não ter as mãos atadas. Estar sempre pronto para olhar para o outro lado.

O texto acima, de José Castello , foi publicado originalmente no blog do autor : http://oglobo.globo.com/blogs/literatura/

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Lendo "O Conde de Monte Cristo" na minha cabeça

Ontem, ao jantar, pensei em Edmond Dantes e como ele e o Padre Espada superaram anos e anos de refeições inglórias, provavelmente batizadas. O cozinheiro da prisão, provável sacana, devia se refastelar sabendo que os presos tinham que comer aquilo, tivesse colocado ele o tempero que fosse. 

Ler romances deste jeito, mesmo que os tenha folheado há tanto tempo, fica bem melhor assim. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

domingo, 28 de agosto de 2011

Christopher Hitchens Advice for Writers



Outras interessantíssimas dicas de escrita, agora vindas de Hitchens!

Martin Amis - Writing Advice



Confiram as dicas de Amis sobre escrita aos incautos!

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Entrevista de Llosa sobre seus livros, suas cidades e viagens

Quando Vargas Llosa falou ao Viagem por Bruna Tiussu







12.outubro.2010 13:39:02 


Leia na íntegra a entrevista que o escritor Vargas Llosa concedeu à repórter Ana Carolina Sacoman ao Viagem, em 23/1/2007, época do lançamento da obra Travessuras de Menina Má:

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 70 anos, viveu de perto cada uma das mudanças convertidas em pano de fundo histórico de Travessuras da Menina Má. Assim como o protagonista, Ricardo Somocurcio, estava em Lima nos anos 50, viu de perto a onda de manifestações em Paris na década de 60, se encantou com os hippies londrinos nos anos 70 e viu a Espanha passar de um país praticamente subdesenvolvido e sob forte ditadura para uma nação democrática e próspera, na década de 80.

Há ainda outras coincidências entre criador e criatura: como Ricardo, Vargas Llosa trabalhou uns tempos como tradutor da Unesco, em 1967, e viveu no École Militaire, em Paris. Escreve, então, de memória sobre cafés, restaurantes, ruas e praças. É, em suas palavras, maniacamente realista nas descrições.

Mas as referências autobiográficas, garante, param por aí.

Os encontros e desencontros amorosos entre o protagonista e a menina má são ficção. O homem que nunca tira férias acredita que um turista não pode deixar de se interessar pelos aspectos políticos e sociais do país visitado. “Não se pode entender uma sociedade e um país se não se interessar minimamente pela problemática política”, diz. E afirma ter saudades do interior da Bahia, um lugar de “gente extremamente generosa, que vive num mundo cheio de mitos, lendas, com uma paisagem única, espinhosa e bravia, como a personalidade de sua gente”.

De Lima, onde aproveita o verão, Vargas Llosa falou ao Viagem, por telefone. Veja a seguir:

As cidades onde se passa a história de Travessuras da Menina Má são todas importantes em sua vida?

Muito importantes e, além do mais, creio que tive muita sorte por viver em cidades como Paris, Londres e Madri em uma época em que nessas cidades ocorriam coisas que tiveram uma enorme repercussão em todo o mundo. Nos anos 60, por exemplo, Paris, além de ser a cidade histórica, grande centro de cultura, era uma cidade onde praticamente saíam as idéias que mobilizavam os jovens de todo o mundo, que converteu a revolução cubana em um mito. Era uma cidade de enorme fermento ideológico e político. Nos anos 70, viver em Londres era como viver no centro do mundo, porque ali havia uma revolução que não era tão política, mas de valores, culturas, costumes. Essa é a Londres da revolução hippie, dos flower children, dos Beatles, da grande revolução que significa a música como signo de identidade dos jovens do mundo. É a cidade onde começa o grande movimento do orgulho gay, quando os homossexuais saem do armário. Nos anos 80, Madri é uma cidade referência pela extraordinária transição que vive a Espanha, da ditadura para a democracia. Há a movida madrileña, que também é uma certa revolução nos costumes. Todo esse contexto, em meu caso, vivi de certa forma diretamente, pois vivi esses anos ali.

Ricardo, ao contrário, fica à parte dos acontecimentos…

É verdade. É um personagem mais passivo, que vê passar ao seu lado todas essas coisas, sem participar delas. Ele não tem senão uma experiência importante em sua vida, que é seu amor pela menina má. Graças a esse amor, vive uma intensidade de experiências que de outra maneira não teria, pois sua vida é rotineira, monótona. Porque, diferentemente dela, é passivo, conformista.

O livro tem detalhes minuciosos de lugares, como o nome de uma rua, onde há um restaurante, uma praça, um hotel. E todos (ou quase) existem, não?

É verdade que sou, nesse sentido, maniacamente realista. Realismo não quer dizer descrição fotográfica da realidade, mas, sim, usar a realidade como um ponto de partida e com maior objetividade para, a partir daí, construir algo imaginário. Nessas cidades, sim, sou bastante objetivo, mas objetivo com a época, pois as histórias ocorrem nos anos 60, 70 e 80, e muitos desses lugares já não existem. Por exemplo, descrevo, em Paris, o (restaurante) Mexico Lindo e hoje em dia, que tristeza, é uma loja de botas (risos). Mas há muita fidelidade. Muitos dos lugares que descrevo existem.

São lugares importantes para o senhor?

São lugares que eu freqüentei, que conheci, que de algum modo conservei na memória. Ali, sim, há memória, mas trabalhei muito, há verificações. Em Lima, que mudou muito desde os anos 60, alguns dos lugares que descrevo não são exatamente assim, mas foram.

Em Paris, o senhor fala muito dos arredores da École Militaire, onde Ricardo vive…

Exatamente. Eu vivi nesse bairro muitos anos. Não tem o encanto de Saint-Germain-des-Près ou do Bairro Latino (Quartier Latin). Eu vivi ali porque tive a sorte de achar um apartamentinho alugado muito barato. Não é (um bairro) muito bonito, mas se pode ir andando praticamente a toda parte, às Tulherias, às Champs-Elysées, ao Bairro Latino.

É seu lugar preferido na cidade?

Não, o preferido é sempre (a área do) Bairro Latino e Saint-Germain-des-Près, porque vivi a maior parte do tempo ali. Segue sendo o bairro dos jovens, dos cinemas, teatros, universidades, onde estão os cafés mais simpáticos. Nesses cafés escrevi boa parte dos meus livros. Eles aparecem porque são muito importantes na minha vida de escritor. Aprendi a trabalhar, a escrever em cafés. Sempre que estou em Paris, mesmo que por poucos dias, passo umas horas escrevendo nos cafés que me encantam.

Em Madri, escolheu o bairro de Lavapiés…

Porque é um bairro que tem muita cor, é mais cosmopolita, divertido. Quando cheguei a Madri, estudante, era um bairro mais castiço, mais madrilenho, e, em poucos anos, a partir dos (anos) 60, 70, foi se convertendo no bairro dos imigrantes. Hoje em dia, é um lugar muito divertido. Existem traficantes, drogas, violência, mas tem cor e graça.

Acredita que as cidades são também personagens de Travessuras da Menina Má?

Sim, acredito que as cidades têm presença quase humana porque a vida dos personagens está intimamente ligada à paisagem urbana, como uma prolongação. Procuro, em meus livros, que não haja uma separação total entre as histórias, os personagens e os meios. As cidades aparecem na medida em que são importantes para o desenvolvimento da ação, para entender a psicologia do personagem; é uma projeção do personagem, incorporada à história.

Nesse contexto, Tóquio aparece somente para o desenvolvimento da história…

Exatamente. O que acontece ali tem a ver com a cidade, com uma certa psicologia, um mundo exótico para Ricardo, um mundo em que não se sente cômodo, que não conhece. Isso contribui para o estado de sobressalto em vive desde que pisa em Tóquio.

Acha que os romances podem ser bons guias turísticos?

Sim, para mim têm sido. Uma das coisas mais divertidas que fazia em Paris, quando cheguei, e em Madri, antes, era seguir o itinerário dos romances. Lembro, em 1958 e 1959, em Madri, seguia os romances de Pío Baroja, como, por exemplo, Aurora Vermelha, uma trilogia sobre anarquistas. Seguia o itinerário, que existia, porque ele também era um maníaco por realismo. E lembro de ter lido Fortunata e Jacinta, de Benito Pérez Galdós, (que se passa) na Madri do século 19, que estava intacta nessa época e pude seguir pelas ruas essas descrições. Em Paris também. Quando trabalhava na Rádio e TV francesa, lembro de ter feito alguns programas sobre Paris vista por alguns romances. De Balzac, Stendhal, Flaubert. No Brasil, nas temporadas que passei em Salvador, muitas vezes segui pelas ruas lendo as descrições de Jorge Amado sobre o Pelourinho e distintos bairros da capital. Acredito que a literatura é o melhor guia turístico das cidades.

O senhor tem casas em Londres, Paris, Madri e Lima. Onde passa mais tempo?

Depende dos anos e do trabalho. Quando trabalhava na menina má, passei temporadas grandes em Paris, porque facilitava o trabalho. Em Lima, estou sempre no verão. E o resto do ano passo na Europa, de um lugar a outro.No romance, o senhor fala das transformações sociais e políticas que ocorreram na Europa e na América Latina.

Acredita que um turista deve atentar-se a esses aspectos em suas viagens?

Um turista que tem sensibilidade não pode evitar interessar-se por essa problemática. Não precisa se tornar um especialista, mas é importante que tenha uma certa percepção do que ocorre em âmbito político, porque pode ter surpresas desagradáveis (risos). É importante ter esse tipo de conhecimento, não se pode entender realmente uma sociedade e um país se não se interessa minimamente pela problemática política.

Não ser um personagem passivo…

Uma mínima curiosidade, sim, tem de ter, porque isso levará a um conhecimento maior da sociedade que está visitando. Não impede que se divirta, o que é legítimo, mas, ao mesmo tempo, como não se interessar? Se vai ao Brasil, há as praias, os restaurantes, a música. Tudo isso é maravilhoso, mas o Brasil é muitas outras coisas também. Há uma problemática, uma diversidade, há conflitos de tipo cultural, político. Ter conhecimento disso te dá uma maior inserção no país.

Qual cidade merece um romance que ainda não escreveu?

Tantas. Tinha de ter várias vidas para escrever sobre todas as cidades que tenho recordações muito vivas, mas espero escrever várias histórias antes de morrer.

E onde vai de férias?

Não tenho nunca férias. Trabalhar é um prazer supremo, me divirto muito escrevendo, não consigo viver sem escrever. Tenho a sorte de levar meu trabalho pelo mundo. Agora mesmo estou em Lima, no verão. De quando em quando, aproveito, tomo banho de mar, mas meu trabalho segue. Férias, no sentido de deixar de trabalhar, não tiro nunca. Me sinto muito mal, não gosto, fico de mau humor. Meu trabalho me dá equilíbrio, é um prazer infinito e uma forma de diversão.

Qual seu lugar preferido no Brasil?

Gosto de tantas coisas no Brasil… Se tiver de escolher, provavelmente escolho a Bahia. Tenho lembranças tão maravilhosas de lá. Vivi em Salvador e fui ao interior da Bahia. Passei praticamente por todo o sertão baiano e não esqueci nunca, pela beleza da paisagem, a generosidade das pessoas, a personalidade extraordinária, sobretudo do baiano do interior, o caboclo, gente de personalidade forte, bravia, tão diferente do baiano do litoral, que é mais comunicativo, alegre. Gostaria muito de voltar.

Nunca mais voltou?

Ao interior, não. A Salvador, sim, várias vezes. Mas não perco as esperanças de voltar mais uma vez.

Nos anos 50, em Lima, o senhor trabalhou na Revista Turismo. Escrevia sobre viagens?

Era uma revista cultural, que entendia o turismo como manifestação cultural.Acredito que é a melhor expressão do turismo. Então, era uma revista onde havia informações de tipo turístico, mas orientadas para a cultura. Se se falava de Áustria, se falava da música, dos festivais, dos grandes compositores e diretores e instrumentistas. Era uma revista dessa índole. Me diverti fazendo esse tipo de jornalismo, por dois anos, quando era estudante na universidade.

O LIVRO

Por quatro décadas, o peruano Ricardo Somocurcio “persegue” o amor de sua vida, a menina má, pelo mundo. Eles se conhecem, ainda pré-adolescentes, no bairro de Miraflores, na Lima dos anos 50, e se encontram em cidades e tempos diferentes, sempre em meio a transformações políticas e sociais. Tradutor da Unesco, Ricardo acompanha essas mudanças meio à distância, enquanto segue uma vida pacata em Paris, a cidade de seus sonhos. Ela, cada vez de nome e marido diferentes, encarna vários personagens ao longo da vida: guerrilheira, madame francesa, milionária inglesa, gueixa moderna japonesa.

Travessuras da Menina Má: tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht; 302



terça-feira, 26 de abril de 2011

Bruce Chatwin e sua dissecação da errância

O escritor inglês Bruce Chatwin (1940-1989) produziu uma das obras mais interessantes do último século, mas, já é bom adiantar, polêmica e controversa. 



O primeiro aspecto se deve a algumas escolhas adotadas em sua produção literária, como a adoção do gênero de relatos de viagem que, ainda dizem críticos (e amigos meus), estaria morto e/ou inviável no século XX, já que não há mais terras virgens. No entanto, sua prosa resolve muito bem esses supostos impasses, ao propor uma viagem particular e sentimental, ao estilo de Tristan Shandy, por entre locais relativamente inusitados e personagens singulares, porque inóspitos.

Já a controvérsia de seus textos fica por conta da falta de comprovação da veracidade dos relatos narrados e da contestação do retrato da personagens apresentados como reais pelos próprias pessoas retratadas. Um dos supostos meios para comprovação da veracidade de um relato de viagem, pelo menos quando esse gênero ainda estava em voga até o começo do séc. XX, seria sua confrontação com outros relatos e com o testemunho das personagens retratadas. Porém, estamos diante de um escritor despótico, que traz ao leitor a noção clara de que o autor é ele. Algo que o biógrafo de Chatwin, Nicholas Shakespeare retratou da seguinte maneira: "Chatwin contava não uma meia verdade, mas uma verdade e meia". Assim, Chatwin é um escritor-viajante à sua maneira: absorvia a matéria de que tratam seus romances em uma cuidadosa e selecionada investigação bibliográfica, para daí extrair um caminho a ser percorrido in loco em suas viagens.


Em "O Rastro dos Cantos", ele viaja à Austrália, para conhecer a gênese mítica dos aborígenes daquele continente. Já baseado em estudos prévios, ele se serve da matéria que encontra para investigar um elemento singular da natureza humana: o nomandismo. Tema evidentemente vasto e interessantísmo, Chatwin tem necessidade de estabelecer uma tese no fim do livro, pois, ao estruturar a obra entre o relato de sua viagem pelo interior do outback australiano e a formulação de uma proposta para explicar nossa precisão irresistível pela deambulação. Pelo menos, as citações de estudos antropológicos e paleontológicos e de entrevistas com seus autores mostra uma visão, se não hermética, pelo menos não desavisada.

Talvez advenha desse elemento a explicação para o interesse de Bernardo Carvalho em traduzir a obra para o português, pois, em seus romances, Carvalho demonstra como marca de estilo própria à sua prosa a presença de personagens-viajantes.

Identidade e alteridade serão assuntos correlacionados ao gênero de literatura de viagens e aos romances pós-modernos. Ambos se aproveitam desse aspecto para compor narrativas marcadas, cada qual à sua maneira, pelas impressões e pelo estranhamento.

Entrevista de Paul Theroux no Estadão

Paul Theroux e a busca do tempo vivido

O mais prestigiado representante da literatura de viagens contemporânea revisitou, 33 anos depois, alguns países do Oriente e, em novo livro, diz que as transformações obedecem a uma 'lei natural'

26 de fevereiro de 2011 | 0h 00
UBIRATAN BRASIL - O Estado de S.Paulo

Lidas em voz alta, as palavras do americano Paul Theroux soam como um ranger de dentes. Famoso pelos relatos de viagem, ele escreveu um livro que é um potente e cuidadoso coquetel servido gelado - Trem Fantasma para a Estrela do Oriente, que a Objetiva acaba de enviar para as livrarias, traz suas cáusticas observações sobre a nova visita que fez à China, Turquia, Índia, Birmânia e regiões da antiga União Soviética. Trinta e três anos antes, Theroux esteve nos mesmos locais e a experiência rendeu O Grande Bazar Ferroviário, publicado em 1975 e responsável por incluí-lo entre os célebres autores daquela geração.

Writer's Desk/Divulgação
Writer's Desk/Divulgação Paul Theroux

"A decisão de regressar a qualquer cenário anterior de sua vida é perigosa mas irresistível, não como uma busca pelo tempo perdido, mas pelo grotesco do que aconteceu desde então", explica ele logo no primeiro capítulo. "Na maioria dos casos é como encontrar a namorada anos depois e mal reconhecer o objeto de desejo naquela figura velha e enrugada." De fato, o escritor se deparou com novos cenários - os trens turcos e indianos não eram mais puxados por locomotivas que fumegavam vapor, tampouco ainda existia a URSS - Theroux conheceu o Turcomenistão, país que, até 1991, era uma república soviética chamada Turcmênia.



Escrevendo em sua própria voz, ele não se sente mais constrangido em fazer as vontades do leitor. Theroux reforça seu velho modo de escrever como se o leitor fosse um hóspede não convidado, chegando na noite errada numa casa escura. Ele se vale principalmente de uma situação particular vivida por homens de idade: a invisibilidade social. "Os mais velhos são tidos como cínicos e misantropos", acrescenta. "Mas não é nada disso, eles são simplesmente pessoas que já ouviram a calma e triste música da humanidade tocada por uma banda de rock de segunda, desesperada pela fama."

A velhice impõe uma transparência que transforma esse homem em um ser à parte, despercebido na multidão. A situação é vista com bons olhos pelo escritor que, maduro, consegue observar melhor quando viaja, sem ser interrompido ou interpelado em suas experiências. A falta de pressa, no entanto, só traz um incômodo: o de ser confundido com um vagabundo.

Próximo dos 70 anos (completa em abril), Paul Theroux ostenta um invejável currículo de viajante. Depois de se formar em Língua Inglesa, ingressou no Corpo da Paz (agência federal americana criada em 1961 a fim de ajudar os países em desenvolvimento) e foi professor no Malauí, na África, entre 1963 e 1965. Nesse período, ajudou o opositor político Hastings Banda a fugir para Uganda, onde passou a viver. Lá, iniciou uma amizade de 30 anos com o romancista V.S. Naipaul, então professor visitante, que terminou de forma turbulenta - em 1996, Theroux desentendeu-se com a nova mulher de Naipaul, Nadira, o que provocou o rompimento. Dois anos depois, ele publicou Sir Vidia"s Shadow: A Friendship Across Five Continents, livro de memórias no qual faz revelações explosivas sobre sua convivência com o colega escritor. Viajou ainda para Argentina, Japão, África do Sul e outros países.

Como nunca escreveu uma biografia, Theroux considera o relato de suas viagens uma forma de compreender a própria vida. E revisitar lugares, como faz no novo livro, o transforma em um espectro, "a sombra bisbilhoteira do trem fantasma", como observa na seguinte entrevista exclusiva ao Estado, concedida por e-mail.

"Se você está realmente sofrendo, então você está viajando", o senhor disse uma vez sobre viajar. Não creio que deseje sofrer, mas o sofrimento ajuda quando se está escrevendo sobre ele?
O sofrimento - isto é, passar um mau momento - é uma ajuda à memória. Com dor, você se lembra de detalhes que não fosse isso esqueceria. E ninguém quer ler sobre um viajante passando momentos maravilhosos. Não há muitos livros de viagem que relatam viagens prazerosas.

Como um viajante mais maduro (e mais velho), o senhor é menos otimista sobre as coisas?
Sou um otimista em ação, e um pessimista em pensamento. Quanto mais se vive mais fica óbvio que as coisas estão piorando: mais pessoas, mais poluição, mais estupidez política, mais destruição do meio ambiente natural, mais urbanização.

Comparando os dois livros, pode-se notar que no primeiro o senhor não mostra muito interesse por assuntos políticos. Pode comentar isso?

Eu não tive nenhum interesse em política em O Grande Bazar Ferroviário, exceto em minhas viagens ao Vietnã - a guerra era loucura política. Eu só mencionei política em Trem Fantasma quando os países eram absurda e grotescamente políticos como o Turcomenistão e Cingapura.

No novo livro, o senhor escreve que "ser invisível é a condição usual do viajante mais velho". Será que essa invisibilidade ajuda a levar as pessoas mais a sério?
Não acho que me faça levar as pessoas mais a sério, mas quando se é invisível, ou não notado, isso é uma grande vantagem para a observação e muito repousante. A pessoa mais velha é como um fantasma. Pessoas idosas são geralmente desconsideradas porque elas não estão interessadas em comprar o tipo de coisas que é geralmente vendido (aparelhos eletrônicos, música, etc.); não se tira lucro do idoso. O mundo abastece os jovens - eles são os compradores e são ingênuos demais para saber que estão desperdiçando seu dinheiro.

Na segunda viagem, o senhor viajou com um BlackBerry e se manteve em contato com sua casa. Isolar-se numa viagem ainda é importante para o senhor?
Isolamento e desconexão são importantes para a verdadeira experiência de viagem. Com a internet e os telefones, etc., é como se você não tivesse saído de casa. É preciso se desconectar e viajar no escuro.

A globalização é um fenômeno com que todo viajante se depara hoje em dia. Até que ponto nosso mundo é plano?

A globalização é como um vírus, uma doença, que engolfou boa parte do mundo. Mas você ficaria surpreso em saber a quantidade de lugares que ficaram intocados pela modernização, e que são melhores por isso. A grande ilusão é que a globalização é uma melhoria. Eu acho o oposto.

Trem Fantasma para a Estrela do Oriente não trata tanto da viagem enquanto tal, quanto do senhor mesmo. Escrever sobre viagens tornou-se um substituto para a autobiografia que o senhor um dia vislumbrou?
O livro de viagens é quase sempre uma forma de autobiografia, com o viajante escrevendo sobre suas reações a um país, e não uma visão objetiva do país. É mais um livro de memórias que um livro de geografia. É por isso que uma das piores experiências que um leitor pode ter é ler um livro de um viajante que visitou seu próprio país - os brasileiros devem odiar os muitos livros de estrangeiros sobre o Brasil!

A escrita sobre viagens tem a ver com lugares. É uma espécie de gênero tridimensional. O que o sr. fez em Trem Fantasma foi adicionar a quarta dimensão: o tempo. Estou certo?
Sim, a quarta dimensão é eu fazer a viagem mais de 30 anos depois. Os lugares haviam mudado, e eu havia mudado, e isso torna a coisa toda mais interessante e digna de fazer para mim. É preciso ter uma razão maior para viajar que a mera curiosidade, embora a curiosidade seja um bom começo.


segunda-feira, 11 de abril de 2011

Há pessoas...

"Há pessoas que têm uma verdade própria, separada. As pessoas comuns não são nada sem a verdade corriqueira, absolutamente nada. Morrem sem ela, sem a inocência e a honestidade. De fato, a grande maioria se mata muito antes da hora. Vivem quando crianças; empalidecem na adolescência; mostram um clarão de vida no amor; morrem com vinte e poucos anos e se juntam às pobres coisas que se esgueiram raivosas e inquietas pela terra".

Patrick O'Brian (In A Fragata Surprise. Rio de Janeiro: Record)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Kapuscinski: suas crônicas africanas e o nomandismo na atualidade.

Do livro Ébano: minha vida na África, retiro esse trecho que sintetiza bem o tipo de olhar, demorado ou apressado, que lançamos ao mundo globalizado. É evidente perceber que o conceito idealizado de mundo global para o polonês falhou, já que as comunidades filtram frequentemente o que chega de fora. Não é à toa que o dito trecho pertence à sua palestra sobre Ruanda, país isolado até pouco tempo no cenário colonial e neocolonial, que somente recebeu atenção devida no fim do século XX e que foi principalmente motivada pelos massacres mal noticiados à época.

A experiência de leitura da obra têm sido fascinante: a vida cotidiana nos países africanos, a impossibilidade de se inserir integralmente na cultura (já que Kapuscinski é polonês e, logo, europeu e branco), a precariedade de condições de vida e de sobrevivência em várias situações de risco extremo, o testemunho in loco da independência desses países e, em muitos trechos, a explícita preocupação de se prostar às mesmas condições da população miserável e inscrevê-los (para, assim, não esquecê-los).

Leitura altamente recomendável...

Eis o trecho:

"(...) Nosso mundo pseudoglobal é, na verdade, um planeta de milhares de províncias diferentes que nunca chegaram a se encontrar. 'Viajar pelo mundo' consiste em se deslocar de uma província a outra, e cada uma delas é uma estrela solitária brilhando exclusivamente para si. Para a maioria de seus habitantes, o mundo real termina na soleira da porta de casa, no fim de seu vilarejo ou então, no máximo, nos limites de seu vale. O mundo mais além é irreal, sem importância e, até, desnecessário; este, que está ao alcance das mãos, dentro de seu campo de visão, adquire a dimensão de um gigantesco cosmo que encobre todo o resto. Na maioria das vezes, o habitante local e o forasteiro têm dificuldade em encontrar uma linguagem comum por adotarem cada um lentes diferentes para observar o mesmo lugar: o forasteiro utiliza uma objetiva grande-angular que lhe proporciona uma visão distanciada e diminuta das coisas, mas, em compensação, ela lhe permite enxergar a extensa linha do horizonte; o habitante localsempre usou a teleobjetiva, e até mesmo o telescópio, que ampliam os menores detalhes".

sábado, 12 de setembro de 2009

Hiroshima, de John Hersey


O último bom livro lido, Hiroshima, do jornalista americano John Hersey, traz nuanças interessantíssimas (e tétricas, evidente) do evento que marcou o fim da Segunda Guerra e a entrada do mundo na era da Guerra Fria de vez.
A maneira de conduzir a exposição dos eventos narrados por seis sobreviventes (ou hibakushas), é um ótimo parâmetro de reportagem, expressão humanizada dos relatos, ao tentar manter o fio condutor da narrativa de todos os envolvidos, as relações existentes entre essas seis pessoas que recusaram a rotulação de vítimas.


"No dia 6 de agosto de 1945, precisamente às oito e quinze da manhã, hora do Japão, quando a bomba atômica explodiu sobre Hiroshima, a srta. Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho do Leste da Ásia, acabava de sentar-se a sua mesa, no departamento de pessoal da fábrica, e voltava a cabeça para falar com sua colega da escrivaninha ao lado. Nesse exato momento o dr. Masakazu Fujii se acomodava para ler o Asahi de Osaka no terraço de seu hospital particular, suspenso sobre um dos sete rios deltaicos que cortam Hiroshima; a sra. Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, observava, da janela de sua cozinha, a demolição da casa vizinha, situada num local que a defesa aérea reservara às faixas de contenção de incêndios; o padre Wühelm Kleinsorge, jesuíta alemão, lia a
Stimmen der Zeit, revista da Companhia de Jesus, deitado num catre, no terceiro e último andar da casa da missão de sua ordem; o dr. Terufumi Sasaki, jovem cirurgião, caminhava por um dos corredores do grande e moderno hospital da Cruz Vermelha local, levando uma amostra de sangue para realizar um teste de Wassermann e o reverendo Kiyoshi Tanimoto, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, parava na porta de um ricaço de Koi, bairro oeste da cidade, para descarregar um carinho de mão cheio de coisas que resolvera transferir para ali por temer o maciço ataque dos B-29, que a população aguardava. Uma centena de milhares de pessoas foram mortas pela bomba atômica, e essas seis são algumas das que sobreviveram. Ainda se perguntam por que estão vivas, quando tantos morreram. Cada uma delas atribui sua sobrevivência ao acaso ou a um ato da própria vontade — um passo dado a tempo, uma decisão de entrar em casa, o fato de tomar um bonde e não outro. Agora cada uma delas sabe que no ato de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais mortes do que jamais teria imaginado ver. Na época não sabiam nada disso".

Kiyoshi Tanimoto, reverendo metodista formado nos EUA, é uma personagem marcante: sua postura abnegada, incansável e, por vezes, ingênua, de tentar expor o evento de maneira a traduzir, mesmo que parcialmente (já que discursou a plateias em várias localidades dos EUA), é a força motriz da narrativa. Por meio de sua incansável vontade em auxiliar a todos da melhor maneira possível, perambulando por entre as outrora ruas e casas existentes, são mostradas as cenas mais desoladoras e, simultaneamente, aquelas em que percebemos o esforço dele (e do repórter) em tentar resgatar a humanidade quase extirpada no evento. Leitura difícil, dada a natureza do tema.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Jungle and Saibs


Surpresa e confirmação em meu primeiro e ansioso contato com os contos de Kipling, através da coletânea O Homem Que Queria Ser Rei e outros contos selecionados, da editora Landmark. Sua visão sem concessões da vida na Índia reflete o ímpeto de muitos de seu tempo: de que as colônias não querem perceber-se como tais; é sempre necessário separar a barbárie do meio em que se vive, seja quem for aquele nomeado como o estranho.

Essa busca por um meio em que não houvesse relações de dominação e submissão foi tão forte que moldou o modo de vida cotidiano, os métodos de gestão administrativa, a arquitetura e as relações sociais na Índia. Na jungle, permite-se tudo, e o controle social se restringe a um menear de cabeça. Toda a Índia, um estado de exceção. Um dos personagens mais singulares desta reunião de contos, o telegrafista indiano Gunga Dass, explicita muito bem a questão no conto “A Estranha Cavalgada de Morrowbie Jukes”. Quando Jukes, inconformado com sua situação (como havia caído em uma furna, cuja possibilidade de fuga era remota, destinada àqueles que aparentemente teriam morrido, seriam cremados, mas sofriam na verdade de catalepsia; um Chateau D’Ivy perdido no meio do nada para mortos que ainda vivem), pergunta a Gunga como se vivia e passava o tempo em meio aquela privação. Sua resposta:

“Isso”, disse ele, com (...) riso asmático, “você poderá ver logo mais. Você terá muito tempo para fazer observações. Este lugar é como seu paraíso europeu; não há noivados e nem casamentos”.

Em outro conto, “Berra Berra Ovelha Negra”, é inevitável não pensar na relação deste relato autobiográfico com Campo Geral de Rosa: um menino crescendo, a literatura como escape, a cegueira, a infância em privações, o ambiente opressivo da família em contraste à natureza. Rosa recomendava àqueles que queriam iniciar suas leituras, entre outros, Kipling, a quem nutria grande admiração.

Há estórias que narram o cotidiano da caserna, o ambiente dos quartéis dos exércitos britânicos arregimentados, em contato estreito com a comunidade, seja através da relação de servidão (pois soldados de origem indiana - Sihks, nepaleses Gurkhas, etc - não podiam ascender a postos mais altos do que o de 1o. sgt.) ou pela repressão (devido ao número considerável de levantes das etnias ainda não cooptadas, sempre temidos pelos quadros administrativos e governantes ingleses da Índia). Mas, na maior parte do tempo, a luta era contra o tédio (conto "Wille Wee Winkie") ou contra o clima e as doenças tropicais (conto "Apenas um Subalterno").
Os contos fantásticos são caso a parte: “O Riquixá Fantasma” é digno de relatos de Poe e Conan Doyle. Doença? Obsessão Espiritual? Manifestação demoníaca? Loucura? Para o médico que trata do enfermo, que dizia ver em todos os locais a mulher morta com quem teve um caso, tudo era causado por um distúrbio “gastro-neuro-ocular”. O tal cientificismo também está ali, para “negar” o horror.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Prefácio a "A Estranha Cavalgada de Morrowbie Jukes" de Kipling

Vivo ou morto: não há outra alternativa.

Provérbio indiano.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

London e suas viagens pela América perdida

Jack London é um dos meus preferidos. Seus romances parecem-nos hoje exemplo típico de que um bom escritor pode passar o resto de seus dias (re-) escrevendo um único livro. O que lemos são seus ‘apócrifos’ autorizados (- Licença, Greg: estou usando uma imagem sua).

Dentre os livros recentemente traduzidos, publicados e de maior acessibilidade de London, foi lançado De vagões e vagabundos: memórias do submundo (col. L&PM pocket), coletânea de contos e ensaios em que se ressalta ainda mais o tom autobiográfico de sua prosa, tão presente em Martin Eden ou em O Lobo do Mar.

Em “O Herege”, o jovem, precoce e asfixiado Johnny, primogênito e arrimo de família, resolve sair dos eixos e declara sua independência, abraçando a estrada dos vagabundos.. Em “De vagões e vagabundos”, ele narra casos vividos nos trilhos de trem: luta incessante entre vigias, maquinistas e os clandestinos em meio às paradas da locomotiva, escapadas, espancamentos.

Nos contos “Na gaiola – uma experiência na prisão” e “A prisão”, uma descrição sem concessões do sistema judiciário e carcerário, a ponto de inserir-se em cenas de extorsões, linchamentos, tráfico de influência e por aí vai. Para o leitor do Brasil 2000, nada mais próximo.

Neste livro, aparece o tema da experiência e aprendizagem do homem através do enfrentamento (nada ameno) contra a Natureza. Em certos textos, essa força anímica vinha transmutada como status social, temível vilão, mascarado sob variadas formas: a mãe, um capataz, um patrão, um juiz, um policial, um guarda-freios, um capitão de navio, a montanha, o Inverno, o Mar, (para London, a vida marítima representava a experiência definitiva de vida para o homem em formação). A esta marginalidade, os cenários e paisagens são outras personagens de seus contos (o deserto, as montanhas Rochosas, a prisão, as fábricas, etc), pois funcionam como arena onde o homem digladia para sobreviver.

Sua visão trágica da América de 30 é fruto de seu engajamento político e ideológico, o que o aproxima de escritores como John Reed e George Orwell. Em “Como me tornei socialista”, sua percepção ácida sobre as relações trabalhistas durante a conturbada década da Depressão é permeada de profundo rancor à exploração violenta da mão-de-obra assalariada, seja em quais níveis sociais forem. As mulheres, segundo sua ótica, não tinham a menor possibilidade de superarem uma relação social sem o uso coercivo do sexo: “As mulheres também, nas ruas ou na sagrada relação do casamento, estão prontas a vender seus corpos. Todas as coisas são mercadorias, todas as pessoas compradas e vendidas”. Logo, aqueles que não conseguem vender-se mais, abrigo e comida não lhes são possíveis e, sem isso, eis os proscritos.

Na história do Brasil, o fenômeno ocorre às tantas, sem o devido tratamento: de fato, são praticamente inexistentes políticas e práticas sociais voltadas ao viajante/migrante incidental. Muda o nome; o problema, não: bóias-frias, os sem-terras, índios, quilombolas, catrumanos. A temível ignorância a que Riobaldo se refere, em episódio de Grande Sertão: Veredas. Embora a vida nômade seja atrativa e realização de ímpeto escapista (daí a aventura), o preço a pagar por esse povo, segundo London, é perder juntamente com a impossibilidade de trabalho sua identidade. Bem, não pode haver verdade maior...

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Trilha Estreita ao Confim


"Dias e noites vagueiam pela eternidade. Assim são os anos que vêm e vão como viajantes que lançam os barcos através dos mares ou cavalgam pela terra. Muitos foram os ancestrais que sucumbiram pela estrada. Também tenho sido tentado há muito pela nuvemovente ventania, tomado por um grande desejo de sempre partir". (Matsuo Bashô, 1644-1694)